BY MILY MABE
SÃO PAULO, BRAZIL
2026
Japanese-Brazilian Cuisine:
between adaptation
and distortion.
O projeto propõe uma leitura crítica da distorção da culinária japonesa no Brasil, produzida por um consumo de massa que reduz a cozinha a traduções simplificadas e reforça estereótipos. Em resposta, entende a adaptação como um gesto essencial de preservação da memória e de construção de uma identidade gastronômica nipo-brasileira. O espectro a seguir ilustra o caminho dessa culinária desde a chegada dos primeiros imigrantes em 1908, no porto de Santos, até o momento atual, em que a cozinha japonesa se expandiu por todo o país.
IMIGRAÇÃO
ADAPTAÇÃO
A imigração japonesa ao Brasil teve início oficial em 1908 e pode ser dividida em duas fases principais. A primeira, entre 1908 e 1941, foi marcada pelo ciclo cafeeiro. A segunda, entre 1952 e os anos 1970, aconteceu no pós-guerra, período de expansão econômica e cultural. Cerca de 190 mil pessoas chegaram ao Brasil nesse primeiro momento, formando colônias rurais, diversificando a agricultura e se espalhando pelo interior de São Paulo e norte do Paraná.
Esse fluxo foi interrompido em 1942 por conta da Segunda Guerra Mundial e do rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Japão. Nesse período, a população japonesa sofreu perseguições, censura e privação de informação e cultura. Em 1952 ocorre a retomada das relações entre os dois países, o retorno das imigrações e uma atuação mais forte dos nikkeis na política, indústria e comércio brasileiro.
A agricultura foi uma das principais ferramentas de construção desse legado. Por meio dela, a colônia japonesa revolucionou técnicas de cultivo, cadeias produtivas e costumes alimentares, introduzindo hortaliças, verduras e frutas que passaram a integrar a mesa brasileira. Esse movimento também contribuiu para melhorar o abastecimento alimentar das grandes cidades e a condição de vida dos produtores.
Quando os primeiros imigrantes chegaram ao Brasil, muitos ingredientes utilizados no Japão não existiam aqui. As receitas precisaram ser adaptadas ao solo brasileiro. A cozinha japonesa tradicional sempre buscou aproveitar ao máximo os ingredientes, evitar desperdícios e respeitar o sabor original dos alimentos. Com pouco uso de gordura e molhos, presença de fermentados e atenção à sazonalidade, ela valoriza a leveza, o equilíbrio e a diversidade na composição. Ainda assim, mais do que os ingredientes em si, eram as técnicas, as combinações e as formas de servir que preservavam a identidade, a memória e o espírito dos pratos. Pasta de missô feita com grão de bico, tsukemono de mamão verde, chuchu e melão, sardinhas seca no lugar do peixe bonito para fazer o dashi, folha de mostarda para enrolar o oniguiri, shoyu a base de milho, feijão “carioca” para fazer o azuki, farinha de mandioca para enrolar o dango, entre outros. Durante anos, essas adaptações permaneceram em um universo íntimo das famílias da primeira e segunda geração.
Na década de 50, Bunkyo, Enkyo e Aliança Cultural Brasil-Japão foram oficializados como importantes instituições nipo-brasileiras que fortaleceram a preservação cultural, o acolhimento e os laços entre Brasil e Japão. O Bunkyo e os kenjinkais se tornaram espaços fundamentais de encontro entre os imigrantes e suas famílias, reunindo diferentes gerações mensalmente, em festividades, eventos culturais, esportivos e celebrações sazonais. Esses encontros funcionam como espaços de convivência e manutenção da memória coletiva. Ali acontecem undokais, karaokês, matsuris, apresentações culturais, campeonatos, bazares e almoços comunitários que ajudam a preservar costumes, sotaques, receitas e vínculos afetivos entre as famílias. Nos “motiyori” realizados nos kaikans, cada pessoa leva um prato e a mesa se forma coletivamente: futomaki, hossomaki, nishime, onigiri, pastel, risole, salada de batata, linguiça, bolinho de carne. Essa mistura é uma riqueza. Longe de ser gourmetizada, ela nasce do uso de ingredientes locais, insumos acessíveis e da necessidade de agradar um público amplo. A seleção dos pratos é guiada por memória, conforto e rendimento.
HIBRIDIZAÇÃO
A própria ideia de “pureza” alimentar é complexa. A cozinha brasileira, por exemplo, nasce do encontro entre influências indígenas, africanas e portuguesas. A alimentação sempre esteve diretamente ligada aos movimentos da sociedade, às migrações e às trocas culturais. Conceitualmente falando, talvez não exista mais pureza alimentar, tudo já é híbrido. A diáspora é um dos principais motores da transformação alimentar. O gohan com feijão é um exemplo desse encontro de cozinhas.
Esse processo também aconteceu em outros países. No Canadá e nos Estados Unidos, a dificuldade inicial de acesso a ingredientes tradicionais japoneses, somada ao estranhamento em relação ao peixe cru e ao nori, levou à adaptação das receitas. Ingredientes como caranguejo, frutas e molhos mais intensos ganharam espaço, enquanto a alga passou a ser posicionada na parte interna do sushi para tornar seu consumo mais aceitável ao paladar ocidental. Nos Estados Unidos surgiram também combinações como cream cheese e rolls fritos, marcando o desenvolvimento de uma cozinha japonesa mais híbrida, popular e voltada ao consumo rápido.
Em São Paulo, o sushi americanizado ganhou força principalmente a partir da década de 1980, especialmente na região da Rua da Consolação, impulsionado pela mídia e pela associação da culinária japonesa a uma alimentação saudável e cosmopolita.
INDUSTRIALIZAÇÃO
URBANIZAÇÃO
A urbanização brasileira transformou profundamente a nossa relação com a comida. Inicialmente apoiada nas atividades agrícolas e depois impulsionada pela industrialização no pós-guerra, a cidade passou a impor um ritmo acelerado à alimentação. A rua se tornou um espaço de tensões e convergências, onde culturas locais e estrangeiras se misturam através do comércio formal e informal.
Com o fluxo intenso de pessoas, surgem formatos de alimentação pensados para velocidade e praticidade, como self-service, drive-in, delivery e grab-and-go (não surpreende que todos esses termos sejam em inglês). A lógica desses serviços é fazer a pessoa ganhar ou perder tempo, dependendo da perspectiva. Ganha-se tempo de preparo, de consumo e de deslocamento, mas perde-se tempo na qualidade do alimento, na apreciação do momento e na conexão com determinada cultura. Essas cozinhas condensam preparos, utilizam fórmulas pré-prontas e ingredientes ultraprocessados. Existe uma aproximação com o American way of life e a lógica fordista de massificação, onde acontece uma pasteurização da alimentação e, junto dela, uma desnutrição física, mental e social.
A industrialização rompe com economias circulares e sustentáveis e reforça desigualdades econômicas, culturais e alimentares. Enquanto a agricultura familiar e o terroir respeitam solo, clima, topografia e cultura local, o cultivo técnico busca dominar fatores naturais para maximizar produção e lucro.
De certa forma, ao consumir em supermercados e redes de fast-food, o consumidor se distancia não apenas da origem do alimento, mas também da sua própria cultura. Não sabemos quem produziu, como produziu e em quais condições. A velocidade acelerada da cidade e o consumo excessivo tornam nossa relação com a comida mais instantânea, menos sociável, menos nutritiva e mais superficial.
MASSIFICAÇÃO
STATUS
DISTORÇÃO
Dentro da cozinha comercial japonesa no Brasil, podemos fazer um recorte simples em três categorias: fast-food, restaurantes tradicionais e alta gastronomia.
As cozinhas rápidas utilizam ingredientes baratos como ferramentas de venda e adaptação ao mercado. Muitas pessoas desejam consumir comida japonesa, mas nem sempre estão familiarizadas com sabores mais tradicionais da culinária ou possuem condições financeiras para frequentar restaurantes especializados. Ingredientes como cream cheese, frutas, molhos intensos e frituras ajudam a aproximar esses pratos do paladar brasileiro, tornando a experiência mais acessível tanto no sabor quanto no preço, principalmente por utilizarem menos ingredientes considerados nobres ou de alto custo. A questão do valor está diretamente ligada ao acesso e à oferta, influenciando também a forma como construímos nossos critérios sobre o que consideramos uma “boa” comida japonesa. Muitas vezes, o consumidor aceita determinados preparos porque não possui repertório ou referências suficientes para comparar.
Existe um grau de aprendizado envolvido na percepção do sabor, da técnica e da qualidade. Ao mesmo tempo, existem diferenças culturais importantes na própria construção do sabor. Enquanto a culinária japonesa tradicional valoriza delicadeza, equilíbrio, sazonalidade e sutileza, a cultura alimentar brasileira muitas vezes se aproxima do excesso, da intensidade e da abundância. Também é importante reconhecer que, ao mesmo tempo em que esses restaurantes que se apresentam como “de comida japonesa” conseguem ampliar o acesso, o consumidor fica cada vez mais distante de experimentar pratos típicos adaptados ao solo local, sem perder a essência japonesa e, assim, desconstruir uma ideia enviesada pelo consumo de massa do que é a cozinha japonesa no Brasil.
Já os restaurantes tradicionais oferecem pratos clássicos e adaptados à sazonalidade local como cozidos, caldos, grelhados e crus. Porém, alguns insumos básicos, como o próprio arroz japonês, possuem custo elevado, o que impacta diretamente o valor da refeição. Os restaurantes omakase, por sua vez, oferecem experiências exclusivas, ingredientes importados e iguarias em quantidades limitadas.
Existe uma divisão clara entre custo e volume de um lado, e técnica, qualidade e exclusividade do outro. Um exemplo disso é o salmão. Em muitos rodízios populares, cerca de 80% do peixe servido é salmão de cativeiro vindo do Chile. Seu uso é prático e barato porque ele pode ser congelado e descongelado sem perder a coloração, muitas vezes garantida por corantes presentes na ração. O consumo massivo desse peixe também gera impactos ambientais importantes no Chile, já que muitos salmões escapam das fazendas e afetam espécies nativas da região. Mesmo assim, ainda existe a ideia de que o salmão representa sofisticação, sendo que na cozinha tradicional japonesa ele nem ocupa um lugar tão central.
Na cozinha japonesa, a qualidade do peixe não depende necessariamente da origem, mas do manejo. O peixe precisa ser fresco para ser consumido cru. Outros pratos como por exemplo o kakiague, muito comum em feiras gastronômicas, teve sua composição modificada para atender um consumo de massa, onde se adiciona mais farinha, para baratear o custo e se aproxima mais de uma bolacha frita do que do tempura em si onde se tem uma variedade de ingredientes.
Quando um alimento passa a ser amplamente consumido fora do seu contexto original, ele deixa de funcionar como marcador de alteridade e passa a integrar o cotidiano da cultura dominante. Nesse processo, sua origem pode ser suavizada, reconfigurada ou até apagada. A sociedade tende a recriar os pratos de acordo com seus próprios repertórios culturais. Como descreve Sidney Mintz, a adaptação alimentar é inevitavelmente um processo de tradução cultural. No entanto, quando essa tradução se desconecta dos sistemas simbólicos de origem, ela pode resultar em formas distorcidas e esvaziadas de significado.
“ Maionese é uma coisa bem curiosa. No Japão eles são loucos por maionese e tem gente que coloca um pouco de maionese no arroz, com curry, na pasta de atum que recheia o onigiri. Toda casa tem um tubo de maionese na geladeira. Eles até gostam de cream cheese mas vale lembrar que metade da população japonesa, se não mais, é intolerante à lactose. Então o consumo de cream cheese nem chega perto da maionese. Eu acho que maionese está incorporada à cultura culinária de lá, assim como o ketchup. Que aliás, é também outra coisa curiosa, é usado no preparo de pratos, como um molho de tomate, como um tempero. Está no arroz do omuraisu, no espaguete "naporitan", etc. Principalmente no caso do ketchup eu não acho uma americanização, porque os sabores doce e ácido tem muito a ver com a cozinha japonesa. E, além do mais, o ketchup tem origem na China, então é meio algo que deu a volta ao mundo e voltou para o mesmo lugar.”
MARISA ONO
“ “Você vai em um rodízio japonês no Brasil: o primeiro prato é um carpaccio de salmão marinado na manteiga da Normandia. Aí depois vem o ceviche que é um prato peruano, depois um tartar que é francês, depois o californa e o hotroll que são americanos, depois o temaki hot que é um prato americano... Uma sequência de pratos que não são pratos japoneses, então entra em uma parte da distorção. Uma pessoa que tá acostumada a comer no rodízio, nunca comeu uma comida tradicional, só salmão e atum de péssima qualidade, está na hora de passar de nível: vai comer em um restaurante tradicional, vai experimentar outros peixes que não é o salmão.”
CARLOS SUZUKI
“O conceito da culinária nipo-brasileira propõe a cozinha que surgiu dentro da comunidade de imigrantes versus a cozinha nipo-brasileira criada pelos brasileiros.
A comida da obachan, doméstica, familiar, foi estigmatizada, pois as obachans eram muito humildes econômica e socialmente. A obachan escondia a culinária dentro de casa: ‘fiz do meu jeito, não é grande coisa’. Ali existia uma sabedoria culinária fantástica. Essa vergonha passou para a segunda geração e essa cozinha não foi compartilhada com os amigos, tornando-se um alimento restrito a um universo muito íntimo. Na terceira geração acontece um tipo de resgate. Começa-se a perceber, por curiosidade, que existe algo escondido dentro da comida familiar. O resgate é urgente, a pesquisa é urgente.”
JO TAKAHASHI
“‘Eu não admito ir em um restaurante que não tenha hot roll.’ Já ouvi muitos comentários assim nos restaurantes em que trabalhei, do público frequentador comentando nesse sentido, de que o hot roll é tradicional. Para nós, isso não faz o menor sentido, concorda? Mas, no olhar dessas pessoas, o tradicional é o hot roll, e servir um sushi não maçaricado e sem foie gras é o fusion - quando, na verdade, é totalmente o contrário...
Um uramaki já é uma coisa inexistente na culinária tradicional japonesa, ao inverter o enrolado e colocar a alga para dentro, você perde toda a crocância e a textura. É uma adaptação americanizada que chegou ao Brasil...
O paladar é relativo: o que pode me encantar pode não encantar o outro. A gastronomia é muito ampla. Imagina no Brasil inteiro, talvez o tradicionalíssimo não dure. Então, nesse sentido, talvez a gente perca um pouco da cultura, mas, ao mesmo tempo, isso agrega ao promover trabalho para as pessoas.”
EDSON YAMASHITA
ALL YOU CAN EAT
ALLYOUCANEAT é uma instalação que leva o consumo a um nível absurdo, onde alimento e objeto se camuflam entre o que é e não é comestível. Ao pasteurizar a superfície perde-se a referência original de cada item e, junto dela, seu sabor, cor, textura e singularidade. A mesa frita faz referência as ferramentas utilizadas nas redes de fast-food, com combinações inusitadas, apelativas, um tipo de adaptação que acaba descaracterizando a receita. A escolha do prato para compor essa instalação, é um teishoku, muito popular no Japão e presente nos restaurantes tradicionais brasileiros composto por: gohan, missoshiro, tsukemono, salada e um grelhado principal - é um prato equilibrado e nutritivo e representa a essência da culinária japonesa para além do sushi e sashimi.
AGRADECIMENTOS
Francesca Zampollo
FONDO SCHOOL
Nicole Vindel
Marisa Ono
Jo Takahashi
Yugo Mabe
BIBLIOGRAPHY
ALLYOUCANEAT is a food design project by MILY MABE